Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça setembro.2015

Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça set.2015

Refúgio Bonatti » Les Arlaches

7º dia: 08/09/2015

Depois de admirar o nascer do sol a clarear o topo do Monte Branco, comecei um dos dias mais longos na TMB: no final, tinha caminhado quase 21 quilômetros. Ao sair do refúgio, a trilha permanece praticamente na mesma altitude por quase uma hora e meia até chegar às bordas do Vallon de la Belle, um escarpado e íngreme vale que corta a encosta como uma grande fenda. Para contorná-lo, o caminhante tem que descer até o fundo do Val Ferret, um desnível vertical de uns 300 metros de altura, para voltar a subir a encosta do outro lado do tal do Vallon. A partir daí, a trilha tem um primeiro trecho íngreme mas depois ganha altitude de forma suave até o Refúgio Elena (2.062 metros), onde cheguei em torno das 10 da manhã.

Após uma breve pausa para admirar o Glaciar de Pré de Bar, que forma as cabeceiras do Val Ferret, enfrentei a íngreme encosta atrás do refúgio: são inúmeros e curtos zigue-zagues, quase uma escadaria sem fim, até um mirante a 2.463 metros de altitude. Com o profundo Val Ferret a seus pés, tem-se a impressão de que o mirante está suspenso no ar; e de onde já é possível ver o colo a menos de 500 metros de distância, quase ao alcance da mão.

Recuperado o fôlego, retomei o caminho e, às 11:47, cheguei ao Gran Col Ferret (2.537 m), fronteira ítalo-suíça. Esse colo não separa apenas dois países mas, também, dois mundos geológicos bem distintos: do lado italiano, um ambiente dominado pelo granito, enquanto as rochas sedimentares dominam o lado suíço. A diferença é visível, clara. Olhando na direção da Suíça, destacam-se, ao longe, o Grand Combin (4.314 metros) e, à direita, o Mont Vélan (3.727 metros), este na fronteira entre a Suíça e Itália.

O dia estava perfeito, sem vento e com algumas nuvens esparsas, o que convidava para uma pausa para o almoço. E com a barriga cheia, transpus a fronteira e peguei o caminho pra La Fouly. Depois de uma longa descida a trilha chega ao Refúgio La Peule, onde parei pra comer um sanduíche. A partir do refúgio, a TMB continua por uma estrada de terra até a localidade de Ferret. Antes da primeira casa, vira-se à esquerda em uma trilha em direção ao rio, atravessa-o e acompanha-se a margem até bem próximo de La Fouly, destino final. Pelo menos é o que eu pensava.

Cheguei em La Fouly às 16:17 e tive a grata surpresa de saber que todos os hotéis, albergues, pousadas, pontos de ônibus e bancos de praça estavam cheios. Com isso aprendi, definitivamente, a imperiosa necessidade de se reservar um lugar nos refúgios com alguma antecedência, independente da época que se percorre a TMB. Sem opção, fui à central de turismo, onde me informaram que em Champex a situação também era a mesma. Quando já estava começando a ficar preocupado com a real possibilidade de não ter onde dormir, a atendente me falou de uma pensão na vila de Les Arlaches, a meio caminho entre La Fouly e Issert, a oitenta e oito francos!!! a meia-pensão. Não pensei nem uma vez: aceitei no ato e me senti a pessoa mais feliz do mundo. Neste momento entra um cara que gerenciava a viagem de dois casais, desesperado por não ter onde alocá-los. O desespero dele era tanto que cogitava em alugar uma casa por uma noite. Profundamente agradecido pela ajuda da atendente, peguei minhas coisas e tomei o caminho pra Les Arlaches... que fica umas 2 horas de caminhada de La Fouly. E já eram mais de cinco da tarde. E ainda tinha o cansaço de um dia de caminhada. Conclusão: fui de ônibus.

Les Arlaches é uma pequena e simpática vila com meia-dúzia de três ou quatro casas, sendo que algumas estão de pé há mais de 300 anos. Na pousada, a dona me informou que eu dormiria na casa de uma amiga pois o segundo quarto que ela tinha já estava reservado para um casal que estava pra chegar. Enquanto conversava com ela, quem surge na escada? A holandesa que conheci no Refúgio Maison Vieille, antes de Courmayeur. Que surpresa!! Que não seria a última daquela noite.

Fui pra casa onde passaria a noite. Lá, me esperava um quarto super confortável e, o mais importante: só meu. Que saudades da privacidade!! Tomei banho e esperei a hora do jantar. Às 19:30 cheguei no refeitório e quem era o casal que estava pra chegar? O casal "holandês-suíça" que conheci próximo ao Refúgio du Bonhomme, no terceiro dia da caminhada. Essa foi demais! Eles tinham finalizado o circuito em Champex, onde tinham deixado o carro; mas como os hotéis naquela cidade estavam cheios, desceram pra Les Arlaches.

O sétimo dia se encerrou com um gostoso jantar, um bom papo com três boas companhias, uma deliciosa cerveja e uma cama que mais parecia o paraíso. Com tudo isso, só no dia seguinte teria a real dimensão do que aconteceu neste oitavo dia da caminhada, isto é, o fato de não ter dormido em La Fouly e ter sido obrigado a percorrer um trecho de ônibus.

Estatísticas (GPS)

local hora km
Refúgio Bonatti 7:12

20,7


Refúgio Elena 9:55
Gran Col Ferret 11:52/12:21 *
La Peule 14:27
La Fouly 16:17

* chegada/partida

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