Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça setembro.2015

Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça set.2015

Lac Blanc » Refúgio Bel-Lachat

11º dia: 12/09/2015

Acordar no Lac Blanc e admirar o nascer do sol a iluminar o cume do Monte Branco é uma sensação inesquecível. Como diz o ditado, não tem preço. Uma boa parte das montanhas estava envolta em nuvens mas o ponto mais alto, o Monarca dos Alpes, não: esse tava lá, à mostra, imponente. Foi um belo início de dia! De resto foi mais do mesmo: refeitório cheio pro café da manhã, ligar para o Refúgio de Bel-Lachat pra reservar um lugar, arrumar as tralhas e pegar a trilha. O que não era uma decisão fácil de tomar pois a vontade era ficar ali por mais uma noite.

Enfim, me puxando pela orelha me arrastei pra fora do Lac Blanc e comecei a descer a encosta em direção ao Refúgio la Flégère, a partir do qual a trilha se nivela e permanece assim até a estação de teleférico de Planpraz. Porém, são necessárias quase duas horas!!! para se percorrer esse trajeto. Em Planpraz tirei alguns minutos pra descansar e comer algo pois a trilha a seguir seria bem íngreme até o Col Brévent.

Depois do colo, a TMB se dirige à encosta do maciço do Brévent oposta ao vale de Chamonix e entra num mundo de rocha: só rocha, nada mais que rocha. E zigue-zagueando por aquele rochoso mundo, cheguei à estrada de terra de acesso ao cume. Mais alguns passos e estava, em torno das duas e meia da tarde, no entroncamento da trilha para o Refúgio de Bel-Lachat, onde sentei pra comer alguma coisa e descansar. O Brévent é um dos principais pontos turísticos de Chamonix. Logo, com toda certeza, estaria cheio; e tudo o que não queria era muvuca naquela hora. Queria tranquilidade pra curtir aquele momento, pra perceber, racionalmente, que eu tava pra fechar a TMB.

Quando acabei de lanchar, uma francesa chega e puxa conversa. E no meio do bate-papo, ela confirma o que a francesa no jantar no Refúgio Lac Blanc disse: a retração dos glaciares ocorre a olhos vistos. E acrescentou que, assim como as geleiras, o gelo permanente encontrado nas fendas e fissuras das montanhas (permafrost), que funciona como um cimento a segurar as rochas, está derretendo, o que tem aumentado a frequência de quedas de rochas nas montanhas alpinas(1).

Enfim, nos despedimos e me dirigi ao mirante localizado no cume do Brévent. A 2.526 metros de altitude, o observador deve ter uma visão integral e detalhada da face francesa do ponto culminante do Alpes(2). Eu disse deve ter porque, naquela tarde do dia 12/09, nuvens escuras já começavam a encobrir todo o maciço. Fiquei por ali uma meia hora. Satisfeito, tomei o rumo do Refúgio de Bel-Lachat. Enquanto descia, parava aqui e ali e dava uma olhada ao redor pra me despedir da TMB. Sim, eu estava terminando essa grande trilha; uma trilha pela qual esperei anos.

Ao sair do Brévent, o primeiro trecho é uma descida em vários zigue-zagues por uma encosta que, de tão íngreme, não se via nem os zigues nem os zagues mais abaixo; depois a trilha se torna plana e percorre uma longa crista para, em seguida, como num tobogã, descer por uma espécie de calha até que, de repente, numa curva pra esquerda, o refúgio surge... assim, do nada. Eram quatro e meia da tarde, o céu estava cinza escuro e do maciço do Monte Branco à nossa frente, no outro lado do vale, só se viam os contrafortes.

O Bel-Lachat, a 2.152 metros de altitude, é pequeno, bem simpático e com uma varanda debruçada no precipício sobre a cidade de Chamonix. Sentei numa mesa externa e fiquei ali por um bom tempo. De repente, sai um cara que ali trabalhava, a quem me apresentei. Ele disse pra eu entrar pois ameaçava chover e estava mais quente lá dentro.

- Obrigado mas gostaria de ficar um pouco aqui fora pra curtir o momento e o lugar - eu respondi.
- Gostaria de alguma coisa? - ele me perguntou.
- Sim. Poderia me trazer uma cerveja?
- Claro!

E volta com duas latas de cerveja pra eu escolher. Eu nem vi a outra. Só exclamei: "Soixante-quatre!" Não acreditei naquilo: ter que andar doze dias por três países pra encontrar a cerveja francesa "1664" no último dia. E mais: deliciosamente gelada. Não poderia haver uma maneira melhor de fechar a TMB.

Um pouco depois chegou um casal australiano com quem cruzei ao entrar na Suíça. E ficamos por ali, na varanda, enquanto a chuva não vinha, a conversar sobre a caminhada que estávamos prestes a terminar e tantas outras coisas mais. Foi um belo fim de tarde.

Na hora do jantar, a chuva já caía e a vista do refúgio tinha sido substituída por um imenso e onipresente cinza. E, ao contrário de todos os outros refúgios, no Bel-Lachat éramos apenas 7 pessoas ao todo, dos quais só três fizeram a TMB: eu e o casal australiano. A maioria das pessoas desce direto pra Les Houches... uma diferença de apenas 1.500 metros de altitude.

Estatísticas (GPS)

local hora km
Refúgio Lac Blanc 8:09
14,2


Planpraz 12:06
Trilha p/ Ref. Bel-Lachat 14:17/14:54 *
Refúgio Bel-Lachat 16:35

* chegada/partida

    1. The Bonatti pillar washed away!
    2. Aiguilles du Dru, new North Face rockfall
  1. Foi no cume do Brévent, em 1761, que Horace Bénédict de Saussure, ao ver o Monte Branco, disse que aquela montanha deveria ser conquistada. Diante das consequências de tal desafio, aquele ano é considerado a data oficial do início do montanhismo como esporte.

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