Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça setembro.2015

Tour du Mont Blanc - Paulo Miranda

TOUR DU MONT-BLANC França-Itália-Suíça set.2015

Refúgio des Mottets » Col Chécrouit

4º dia: 05/09/2015

O quarto dia de caminhada seria um dos mais puxados da viagem: em duas ocasiões, eu iria de uma altitude em torno de 1.900 metros para mais de 2.400 metros. A primeira seria logo no começo, quando se parte do Refúgio des Mottets, a 1877 metros, em direção ao Col de la Seigne, a 2.576 metros. A outra, sobe-se do Lac Combal (1.975 metros) até um ponto localizado a 2.430 metros, logo depois do l'Arp Vieille superior. No final, foram nove horas e vinte e cinco minutos de caminhada.

À medida que se sobe os zigue-zagues na encosta ao fundo do refúgio, toda a parte superior do Vallée des Glaciers se apresenta majestoso. Olhando no sentido noroeste, se vê um amplo anfiteatro que recebe as águas dos glaciares des Lanchettes e des Glaciers. Ao fim dos zigue-zagues, a trilha percorre um longo aclive, às vezes íngreme, às vezes suave, até o Col de la Seigne, que naquele dia estava nublado. A subida até o colo foi bem tranquila, inclusive por conta de um longo papo com o Tom, um fotógrafo australiano fã do Sebastião Salgado e ainda adepto da fotografia de filme. Cheguei ao Col de la Seigne por volta das dez da manhã e, apesar da cerração e do vento, tirei um bom tempo pra curtir o lugar; afinal, um colo é um colo, mesmo que as condições sejam um tanto adversas. Na medida do possível, é claro.

Descansado e alimentado, cruzei a fronteira e entrei na Itália(1). Alguns minutos depois passei pela Casermetta: uma construção reformada de dois andares, antigo posto de fronteira, onde funciona um centro de educação sobre o ecossistema de montanha em torno do Monte Branco. Continuei a descer o Vallon de la Lée Blanche - que é, na realidade, a parte superior do Val Veni - com as montanhas gêmeas conhecidas como Pyramides Calcaires a dominar o lado esquerdo do vale. Por fim, às 11:45 cheguei no entroncamento com a trilha que sobe até o Refúgio Elisabetta. Com fama de confortável, situado em um local elevado a proporcionar uma vista privilegiada de todo o Val Veni e tendo os glaciares d'Estelette e Lée Blanche como pano de fundo, compreende-se por que esse refúgio é altamente concorrido, sendo imperioso fazer reserva com antecedência. Além disso, todo o entorno do refúgio é bastante bucólico, com dezenas de vacas a balançar os famosos cloches: sinos pendurados nos pescoços cujo som é quase uma marca registrada dos Alpes.

Logo após o refúgio, a TMB, agora uma estrada de terra, desce até as margens do Lac de Combal por meio de alguns zigue-zagues para, depois de uma longa reta, chegar à base da enorme muralha formada pelas morainas do Glaciar du Miage(2). Neste ponto, a TMB deixa a estrada e sobe a encosta sul do Val Veni. Mas, antes de começar a subida, resolvi dar um pulo no Refúgio Lac Combal para comer alguma coisa.

Uma hora depois, já estava de volta à TMB, subindo a longa e íngreme encosta sul do vale. Esse trecho é um dos mais impressionantes de toda a caminhada pois, à medida que se ganha altitude, não só a encosta italiana do maciço do Monte Branco se revela na sua real dimensão como também se tem uma visão cada vez melhor do Glaciar du Miage, desde as cabeceiras, nas entranhas do maciço, até a sua extremidade final na forma de uma língua bifurcada a lamber o leito do Val Veni. Às 3 da tarde cheguei ao l'Arp Vieille superior (2.303 metros), onde fiquei por uns 20 minutos a comer um chocolate enquanto admirava, de camarote, a fantástica vista que se descortinava à minha frente.

O caminho a seguir serpenteia pela encosta até chegar à aresta norte do Monte Favre, o ponto mais alto daquele trecho (2.430 metros), a partir do qual se transforma em uma longa, suave e interminável descida até o Col Chècrouit. E a trilha descia e descia e parecia que não tinha mais fim... E o cansaço só aumentava, o que me fez cogitar se dormiria no Col Chècrouit ou seguiria até Courmayeur. Em algum ponto desse trecho, encontrei o casal holandês/suíça que conheci no Tête Nord des Fours, próximo ao Col des Fours, 2 dias antes. Por volta das cinco e meia cheguei ao colo e resolvi ficar por ali mesmo, no simpático Refúgio Maison Vieille, tanto pelo horário quanto pelo cansaço: no dia seguinte, ao descer para Courmayeur, comprovei que foi a decisão acertada.

O jantar, como em todos os refúgios até então, era composto de uma entrada, normalmente sopa, um prato principal e sobremesa. E o mais importante: em grandes quantidades, detalhe importante pra quem tá caminhando há dias e com muitos quilômetros ainda pela frente. Nesse refúgio conheci uma holandesa - Alja - com quem joguei conversa fora antes do jantar e que reencontraria alguns dias depois, já na Suíça, numa situação engraçada.

local hora km
Ref. des Mottets 7:54


18,6



Col de la Seigne 9:56
Ref. Elisabetta 11:45
Lac Combal 12:56/13:58 *
L'Arp Vieille superior 15:00
Ponto mais alto 15:48
Col Chécrouit 17:19

* chegada/partida

  1. O lado italiano da TMB percorre, a grosso modo, uma linha reta no sentido SO/NE, formada pelos vales Veni e Ferret e limitada em uma extremidade pelo Col de la Seigne (fronteira com a França) e na outra pelo Grand Col Ferret (fronteira com a Suíça). Devido a essa característica retilínea, é possível ver um colo a partir do outro.
  2. As morainas são formadas pelos sedimentos carregados pelos glaciares e que são depositados no solo quando o glaciar retrocede.

Copyright © Paulo Miranda - 2016/2017