Jotunheimen - Paulo Miranda

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Memurubu » Olavsbu

2º dia - 03/08/2017

No dia 3/8, a minha ideia era pegar o barco que parte de Gjendesheim, para em Memurubu e segue até o Gjendebu, o refúgio da DNT na extremidade oeste do lago Gjende, e de lá seguir até o refútio Olavsbu. Mas por conta de um café da manhã demorado e preguiçoso, quase perdi a hora: quando me dei conta eram quase 8 horas, sendo que o barco partiria de Memurubu às 8:05. Saí correndo em direção ao cais enquanto cruzava com o pessoal que chegava de Gjendesheim para fazer a trilha Besseggen de volta àquele refúgio. Foi por pouco pois ao chegar no cais o pessoal já estava pra tirar a passarela de acesso ao barco.

A travessia durou menos de uma hora e, às 9 da manhã, passei pelo refúgio Gjendebu em direção ao Veslådalen, um amplo, plano e longo vale que é, na realidade, a continuação daquele em que se encontra o lago Gjende. A trilha margeia o rio o tempo todo, à sombra, primeiro do Gjendetunga e, em seguida, do Tungepiggan, dois rochedos que formam a parede leste do vale. Às 11:05 cheguei a uma bifurcação, onde virei à direita e subi uma suave encosta em direção a um amplo e rochoso platô. Neste, um pouco antes do lago Grisletjønnen, uma segunda bifurcação indica, à direita, o caminho para o refúgio Olavsbu, localizado na parte superior do vale Rauddalen. Alcancei a margem daquele lago e por ali fiquei em torno de meia hora a lanchar, enquanto os silêncios e espaços vazios que preenchiam aquele platô "entretinham meu merecido ócio"(1).  O silêncio era tão grande que a sensação de se estar fora do tempo não foi quebrada sequer quando passaram dois grupos de caminhantes vindos do Rauddalen.

Às 12:30 retomei o caminho. Contornei a margem oeste do lago e entrei no rochoso Rauddalen. Desde que se entra nesse vale, a paisagem é dominada, à direita, pela longa crista do maciço Store Rauddalseggje, à esquerda, pelos picos triangulares do Mjølkedalstinden, e entre esse dois, ao fundo, o cume nevado do Rauddalstindane. A trilha serpenteia, incansavelmente, por um terreno plano coberto por um mar de pedras a perder de vista. Certos trechos são, na realidade, um amontoado caótico de enormes pedras onde o caminhante é obrigado a se equilibrar nas quinas e arestas e torcer pra não escorregar.

E assim, após quase quatro horas pulando de pedra em pedra enquanto margeava um lago atrás do outro, cheguei ao refúgio Olavsbu às 16:15. A recepção por parte da pessoa responsável pelo gerenciamento do abrigo foi extremamente acolhedora. Esse abrigo da DNT funciona na base do auto-serviço: há uma despensa e uma cozinha para o hóspede preparar a sua alimentação. Além disso, o próprio hóspede é responsável, também, de pegar água no rio que corre ao lado do abrigo; de acender e manter aceso o fogo; de pegar lenha; de varrer o chão etc. Na partida, ele preenche um formulário com seus dados de contato para a associação de caminhada enviar, mais tarde, por e-mail, as informações para pagamento.

  1. "E nas composições com que os deuses me concedem que eu entretenha os meus ócios, eu sou, discipularmente, do mesmo..." (Fernando Pessoa, em Obras Poéticas: Os Outros Eus / Caracterização Individual dos Heterônimos / Alberto Caeiro visto por Ricardo Reis)

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