Jotunheimen - Paulo Miranda

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Gjendesheim » Memurubu

1º dia - 02/08/2017

Em torno das 7 da manhã do dia 2/8, enquanto tomava café no refeitório do refúgio Gjendesheim, não acreditava no que via pela janela: o céu se abrindo e dissipando as nuvens que há dias seriam para, conforme previsto pelo serviço meteorológico Yr, trazer chuva exatamente naquele segundo dia de agosto. Até a noite anterior, frequentemente conferia a previsão na esperança de tempo bom ou, pelo menos, sem chuva. Mas não: a previsão era chuva pro dia da minha caminhada por uma das trilhas mais famosas da Noruega: a Besseggen, que liga os refúgios Gjendesheim e Memurubu. E o mais engraçado é que, mesmo com o tempo se abrindo diante dos meus olhos, a previsão para todo aquele dia era chuva!

Animado e alimentado, montei meu lanche para a caminhada: na maioria dos refúgios em Jotunheimen, o preço cobrado pelo lanche para a caminhada que é feito com o que é oferecido no café da manhã é cobrado pela quantidade de fatias de pão, sem considerar o que você coloca como recheio. No Gjendesheim, a fatia saiu por 15 NOK. Em seguida, me dirigi ao ancoradouro do barco que liga os três abrigos do lago Gjende e despachei, por 50 NOK, a mochila grande até o refúgio Memurubu. Para a caminhada propriamente dita levaria uma pequena mochila e a câmera fotográfica. Essa dica, que não me lembro mais onde a consegui, é valiosa pois te livra de subir de 995 até 1743 metros de altitude para, depois, descer, entre sobes-e-desces, até o Memurubu (1.008 metros) carregando toda a tralha para dias de caminhada.

Às 8:50, enfim, botei o pé na trilha e comecei a subir a crista leste do Veslfjellet. Os primeiros 2 km são uma subida constante mas tranquila para, em seguida, começar a se nivelar até atingir o longo e rochoso platô que marca o topo do morro. Pra se ter uma ideia, atingi o fim da subida às 10:31 e às 11:10 estava no ponto mais alto, a 1743 metros de altitude. E é nesse ponto, marcado por uma enorme pilha de pedras, que começa a grande atração de toda a trilha: a estreita crista Besseggen a separar os lagos Gjende e Bessvatnet. À medida que se desce a crista, os dois lagos surgem aos seus pés, separados por um estreito colo. A vista é inesquecível, a deixar bem claro o poder da natureza de nos surpreender a cada instante. Detalhe: o lago Gjende está a 984 metros de altitude enquanto o Bessvatnet encontra-se a 1373 metros.

Às 11:50 estava no colo entre os lagos. Perambulei um pouco por ali, parei às margem do Bessvatnet e na beira do precipício do Gjende, sentei pra lanchar e, pronto pra continuar a caminhada, achava ter feito uma pausa de uns 45 minutos. Quando olhei o relógio, me assustei: tinha estado no colo por quase duas horas! Simplesmente não vi a hora passar.

O colo marca a metade da trilha Besseggen: 7 km. Dali em diante, a trilha são zigue-zagues e sobes-e-desces, com raras visões do Gjende, até o momento que o caminhante se aproxima do lago Bjørnbøltjønne. Esse, assim como o Bessvatnet, também se encontra a centenas de metros acima do Gjende, a fazer um belo contraste por conta da diferença de altitude. Uns três quilômetros depois do lago, chega-se na bifurcação para o refúgio Glitterheim, 17 km ao norte. O trecho a partir desta bifurcação até o refúgio Memurubu, apenas 2 km de distância, faz parte daquele grupo de finais de trilhas que, apesar de serem pequenos, dão a impressão de serem mais longos do que toda a caminhada: é um zigue-zague interminável... e o refúgio logo ali, à vista, quase num alcance de mão, mas que nunca chega.

A caminhada terminou às 16:35. Registrei minha entrada na recepção e fui até o porto pegar minha mochila. De volta ao refúgio, deixei toda a tralha a marcar minha cama no dormitório e fui atrás de uma cerveja pra comemorar aquela bela caminhada... e a chuva que não houve.