Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

John Muir Trail is coming soon!

13.08.2002

Só agora, 4 dias depois de pisar em Los Angeles, é que começo a funcionar no fuso do Pacífico (6 horas de diferença para o fuso de Brasília). Durante esses dias, tive a oportunidade de, além de simplesmente pensar nos últimos preparativos para a caminhada que começa amanhã (14/08), fazer algumas poucas coisas, como escalar no centro local do esporte, uma formação rochosa conhecida como Williamson Rocks, nas montanhas de Angeles Crest – uma enorme concentração de escaladores por tudo que é canto, em meio a dezenas de vias para todos os gostos. O lugar em si é muito interessante, um canyon esculpido pela água do degelo da primavera, bem árido e coberto por um pinheiro conhecido como redwood. E, como não poderia deixar de ser, tive meu dia de turista ao enfrentar um engarrafamento em um calorento domingo, de fazer inveja ao verão carioca, só para chegar à praia de Santa Monica. A praia em si não era o mais importante, mas sim ver o Pacífico. Da praia, todo oceano parece igual. Mas, todas as vezes que me deparei com o maior de todos, eu tive um prazer diferente; e dessa vez foi a mesma coisa ao olhar para o horizonte e pressentir a real dimensão desse grande e fantástico mar, descendente real do Pantalassa, o único mar que existia há uns 230 milhões de anos atrás. Até então, como uma versão geológica do ying e yang, as forças opostas e complementares que dão equilíbrio ao Universo, o globo terrestre era ocupado por um único mar e um único continente, o Pangea. Rompido esse "equilíbrio" pelas forças tectônicas, internas, do planeta, o Pangea começou a se fragmentar em vários subcontinentes - com a deriva e o conseqüente choque dessas enormes massas de rocha abrindo novos mares e novos oceanos. Com isso, o Pacífico vem diminuindo de tamanho, mas ainda guarda toda a sua majestade.

Voltando à caminhada, esta noite pegarei um ônibus (os famosos Greyhound) para a cidade de Merced, onde pegarei um outro, da empresa YARTS, para o Yosemite. A hora vem chegando e a excitação aumentando. Considerando o prazo até às dez horas da manhã do dia 14 para pegar minha permissão, faltam, nesse momento em que escrevo o último relato antes da caminhada (10:00 – hora local), exatas 24 horas e 10 minutos para me tornar, oficialmente, mais um caminhante da Trilha John Muir. Ate lá, falta encontrar a arrumação ideal da mochila. Tudo por causa da lata à prova de ursos (a bear-can), um verdadeiro "elefante branco", pesando ao todo, com a comida incluída, pouco mais de 4 kg. Se bem que ainda falta achar leite em pó, que parece ser uma coisa meio rara por aqui. Além disso, à medida que ia encontrando com as pessoas, tanto na escalada quanto nas lojas de montanhismo, e até numa sessão exclusiva de apresentação de um novo filme que ainda não foi lançado comercialmente, todas as pessoas se mostraram interessadas em saber sobre a caminhada, inclusive, em alguns casos, dando sugestões e dicas por já terem ido em algum ponto da trilha. Foram informações totalmente novas, por serem fruto de experiências pessoais, únicas. Uma prova de que, na natureza, um dia nunca é igual ao outro.

Bom… em véspera de viagem, nunca se tem muita coisa para dizer. Ou melhor… não se tem muita concentração para isso, pois o estado de espírito nesses momentos sempre nos deixa meio apreensíveis, focados na viagem em si. Essa sensação que cresce a cada minuto, alimentada pelas dúvidas e expectativas quanto ao futuro, só acaba quando se pisa na trilha; pois é quando se extinguem todas as suposições e teorizações, e se encara a realidade como ela realmente é. Portanto, para não ficar dando voltas e mais voltas, dizendo o que já foi dito, vou ficando por aqui. A todos vocês aí no Brasil, desejo um ótimo mês de Agosto e até a volta. Abraços a todos!

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