Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

Em Vermilion Valley Resort

23.08.2002

Às 7:30 da manhã do dia 23 estou no refeitório do VVR, em meio àquela fauna que a gente está acostumado a ver nos filmes made in Hollywood. Sentado junto à janela enquanto saboreio um café divino (tudo é divino depois de uma semana de granola toda a manhã, alimentado a bombadas no fogareiro de benzina, com temperatura em torno dos 5 graus) com torradas e panquecas, olho os pinheiros que cercam o resort, os mesmos que me acompanharam por um bom trecho ao longo da trilha. Foram exatas 91,9 milhas ou 9 dias caminhando através de um dos lugares mais fantásticos que já vi. O granito predomina absoluto, fazendo com que a JMT fosse literalmente aberta a dinamite e marretadas em muitos pontos, por absoluta ausência de solo.

Depois de uma semana de um interminável sobe e desce em zig-zag, que faz a subida da Pedra do Sino (Serra dos Órgãos/RJ) parecer um passeio no parque, fui passando por vales profundos, lagos alpinos com águas cristalinas, centenas de montanhas fraturadas que dão a impressão de que vão desmoronar a cada instante, e pinheiros, muitos pinheiros, nascendo diretamente das fissuras e fendas do onipresente granito.

Em meio a tantas paisagens, dois momentos se destacam. O primeiro aconteceu ainda no Yosemite quando, acampado às margens do Lago Catedral (Cathedral Lake), um Urso (assim mesmo, com letra maiúscula) passou a dez metros da barraca. Eram 8:30 da noite e só foi possível ver o seu vulto. O suficiente para sentir toda a sua majestade, como a nos lembrar que Ele é o rei daquele território. E a nós, só restando baixar a cabeça e reverenciá-lo.

O segundo momento foi a travessia do Passo Silver em noite de lua cheia, sem uso de lanterna. Em meio ao granito cinza-claro refletindo a luz prata da lua, foi como se estivéssemos caminhando na própria.

Fora isso, existem as pessoas com quem se vai cruzando pelo caminho. A lista é enorme e, por isso, deixarei para quando retornar.

Chegamos ao VVR ontem (22), e depois de um belo banho quente, um farto jantar e uma noite numa cama de verdade, estamos à espera da hora do ferry para retornarmos à trilha. Uma subida de uns 2.000 pés (sem tempo para converter para metros: x 0,3048) nos espera com a mochila cheia de comida. Além da subida, também tenho pela frente, 121 milhas, 7 passos e o Monte Whitney.

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