Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

Trilha John Muir - Paulo Miranda

Sierra Nevada/EUA   agosto/2002

Blowin' o'er the Pass

21.09.2002

A idéia de escrever uma canção para a Trilha John Muir a partir da antológica Blowin' in the Wind do grande (pelo menos para mim) Bob Dylan surgiu ao acaso, quando eu e Matt descíamos o Passo Kearsarge de volta à JMT. Ao pensar nos zig-zags deixados para trás e nos que ainda teria pela frente, verdadeira marca registrada da trilha, não pude deixar de fazer uma irônica adaptação do primeiro verso da canção original - how many roads must a man walk down, before you call him a man? - para falar sobre esses "acidentes" no caminho. Esse lapso de inspiração deu origem ao how many switchbacks must a man ascend, before you call him a hiker?. Nesse momento, partir para o segundo verso foi como "entrar na pilha", no bom sentido é claro: how many seas must a white dove sail, before she sleeps in the sand? deu origem, inicialmente, a how many passes must a woman cross, before she sleeps in the meadow?. Com a elaboração do significativo refrão Blowin' o'er the Pass, encerrando, de forma magnífica, todas as emoções de percorrer a JMT, trocamos passes do segundo verso por creeks, para evitar a repetição de termos e manter o sentido já estruturado para esse verso.

A partir do momento em que criamos o refrão, ainda na Trilha do Passo Kearsarge (Kearsarge Pass Trail), tornou-se impossível não compor uma versão jotaemeteana completa. As idéias, assim como as pedras do caminho, foram surgindo aos montes. Totalmente irônicos e independentes entre si no início, com o tempo acabamos estruturando os versos a partir de uma idéia central, dando uma personalidade mais forte à letra. Aproveitando a série de perguntas da versão dylaneana, estruturamos a nossa de modo que cada verso, ao apresentar uma determinada característica da JMT, questionasse a necessidade de motivos concretos para percorrê-la. O resultado final é uma letra que faz um contraponto à necessidade vital dos tempos modernos de só aceitar atitudes lógicas, funcionais e práticas. Do mesmo jeito que a plena compreensão dos motivos que levam alguém a escalar uma montanha só é acessível quando se pisa em seu cume, assim também acontece com as razões para percorrer uma trilha como a JMT: a resposta, meus amigos, está ventando sobre o passo.

Como não sou tradutor, pois o meu inglês só serve para jogar conversa fora num acampamento ou para não morrer de fome, alguns termos para os quais EU não achei uma tradução mais apropriada foram destacados em itálico nas duas versões e melhor explicados logo a seguir. Em outros casos, eu coloquei complementos (entre parênteses) na própria tradução para fazer mais sentido em português. Mas chega de rigores lingüísticos. Não sou acadêmico e esse relato não é nenhuma tese sobre tradução (deve ser a preocupação com algum tradutor lendo o texto). Afinal, isso é só uma brincadeira que surgiu durante uma bela e despretensiosa caminhada pelas montanhas. E agora, chega de papo e vamos logo à canção...

Está faltando o 8º verso, que será acrescentado em breve... espero!

BLOWIN' O'ER THE PASS (Matthew Isles/Paulo Miranda) VENTANDO SOBRE O PASSO (tradução: Paulo Miranda)

How many switchbacks must a man ascend, before you call him a hiker?

How many creeks must a woman cross, before she sleeps in the meadows?

Yes, and how many times must a bear raid your camp, before it's doomed to die?

    The answer my friends, is blowin' o'er the pass.
    The answer is blowin' o'er the pass.

Yes, and how many years can the Sierra exist, before they're ground into sand?

Yes, and how many leagues may a trail wander through, before it leads to freedom?

Yes, and how many times must blisters form, before human feet become hoofs?

    The answer my friends, is blowin' o'er the pass.
    The answer is blowin' o'er the pass.

Yes, and how many seasons must come n' go, before a cone becomes a pine?

Yes, and... (coming soon)

Yes, and how many shivers must the body endure, before one sings "Here Comes the Sun"?

    The answer my friends, is blowin' o'er the pass.
    The answer is blowin' o'er the pass.

Quantos zig-zags deve um homem subir, para que você o considere um caminhante?

Quantos rios deve uma mulher atravessar, até que ela possa dormir numa clareira?

Sim, e quantas vezes um urso deve pilhar seu acampamento, antes que ele seja condenado à morte?

   A resposta meus amigos, está ventando sobre o passo.
   A resposta está ventando sobre o passo.

Sim, e quantos anos deve a Sierra existir, antes que ela se torne areia (desgastada pela erosão)

Sim, e quantas léguas deve uma trilha percorrer, para que ela nos leve à liberdade?

Sim, e quantas bolhas são necessárias, para que os pés humanos se tornem (tão resistentes quanto os) cascos (do cabrito montês)?

   A resposta meus amigos, está ventando sobre o passo.
   A resposta está ventando sobre o passo.

Sim, e quantas estações devem passar, para que a pinha se torne um pinheiro?

Sim, e... (aguardem)

Sim, e quanto frio deve o corpo resistir, antes que alguém possa cantar "Here Comes the Sun"?

   A resposta meus amigos, está ventando sobre o passo.
   A resposta está ventando sobre o passo.

1. blowing é melhor traduzido para algo como "sendo carregado ou soprado pelo vento". Como ficaria um pouco longo traduzir para "A resposta está sendo carregada (ou soprada) pelo vento sobre o passo", resolvi usar ventando. Também poderia colocar soprando, mas ficaria foneticamente repetitivo por causa do "sobre o passo".

2. meadow é uma área gramada e florida. No dicionário (BARSA/1968) é traduzido para prado ou campina; que não combina muito com os meadows que eu conheci.

3. to raid é pilhar, saquear, além de outros significados.

4. o 6º verso - sobre os pés se tornarem cascos - foi inspirado no senhor que encontramos no alto do Passo Bishop, comparado a um cabrito montês (mountain goat) pela experiência acumulada ao longo de toda uma vida andando por aquelas montanhas.

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